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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Crescer e mudar

2015-05-30 21.00.46

Os anos passaram… E aqueles verões imensos, em que o tempo era muito (mas nunca demais) transformaram-se em duas, máximo três semanas de férias que tinham que ser aproveitadas em pleno!

— Fofinho vamos fugir e ficar aqui para sempre!

— Ai… Bia… nem sabes o quanto eu queria isso… ficar aqui contigo, acordar todos os dias com o som do mar, preguiçar ao sol, nadar, andar de canoa… — sonhou o Filipe em voz alta e em pensamentos que o fizeram perder-se por minutos — Opa! Já viste o que me fazes?! Isto assim é tortura! Bem sabes que não pode ser… Vá, vamo-nos levantar. Ainda temos isto tudo para arrumar!

Era o ultimo dia de férias e só apetecia voltar ao primeiro dia outra vez e outra vez e outra vez…

Mais tarde já no carro a caminho de casa:

— …Quem diria que íamos chegar aqui…E ter uma vida séria como eu nunca previ…E é tão bom acordar de manhã olhar para ti…Antes de ir bulir naquilo que eu sempre curti… — cantava a Bia sem se aperceber bem do significado da letra.

— Ai nem acredito que amanhã já temos de ir trabalhar… está bem que vou poder acordar e olhar para ti — e o quanto que o Filipe adorava morar com a Bia para se poder perder no seu olhar todos os dias — Porém, as vezes apetecia-me voltar atrás e ter outra vez 20 e poucos anos, a morar cada um na casa dos pais mas ter aqueles verões enormes em que te ia buscar e passávamos os dias na praia a passear, a namorar e a conversar…

— lá estamos nos a sonhar… de manhã foi a sonhar com o futuro agora com o passado. Estamos muito saudosista! Estas muito menina!!

— Ei então!! Sou eu que te costumo picar!! — respondeu rapidamente o Filipe fingindo-se muito indignado.

Passado alguns minutos, depois das gargalhadas se desvanecerem e se misturarem com a música que passava na rádio, deram lugar a outros pensamentos.

— Já viste, estamos diferentes… — desabafou a Bia ou melhor pensou alto.

— E isso é mau? Crescemos… estamos diferentes…

— Não é que seja mau… estou só um bocadinho triste… só que apercebi-me que também os meus sonhos mudaram… agora os meus sonhos, são os teus sonhos. Não faz sentido eu querer uma coisa se tu também não quiseres, porque acima de tudo a minha vida só faz sentido se tu fizeres parte dela…

- Oh… — foi tudo o que o Filipe conseguiu articular e entretanto a Bia continuava a falar, a pensar alto.

— Eu quero… queria… já não sei… bem eu queria casar, com um vestido de noiva branco, com um véu de princesa, compriiido… num relvado com uma árvore antiga e o mar ao fundo (o mar não podia falhar não é?). Depois comíamos numas mesas brancas compridas com toda a nossa família e amigos, sob luzinhas, velas e as estrelas…. — depois de uma pequena grande pausa — Mas agora já não quero… Eu queria que tu também quisesses, mas que quisesses mesmo e não só porque eu quero… É por isto que estou triste, porque apesar de já não querer, sonhei durante tanto tempo com isto que agora parece que fico incompleta se não acontecer. Só que é parvo sentir-me assim, porque não é uma coisa que faça sentido agora que eu somos nós… Mas no fundo o sonho está lá…

— Hmm… Não sei o que dizer amor… queria encher-te de beijinhos para não te sentires triste mas estou a conduzir. — e um riso nervoso fugiu-lhe da garganta — Olha só me lembro daquele casamento da tua amiga sabes? Em que fomos namorar para o jardim. É esse o meu sonho! Que apesar de já estarmos juntos desde…sempre! Continuemos sempre a parecer uns miúdos que namoram há 2 meses! :)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Um pesadelo

— Amor! — Chamou o Filipe da cama — Onde estás? Vem para ao pé de mim…
— Estou a ir… Surpresa! — anunciou quando entrou no quarto. — fiz o pequeno- almoço!

Este era mais um sonho repousante, entre tanto outros que a Bia costumava ter e como de costume as caras das personagem eram abstractas e sem linhas definidas. Nas verdade, isso pouco importava, porque ela sabia sempre quem eram as pessoas que entravam no seu mundo, enquanto dormia.

— Ohh… Não acredito, obrigada! Eu estou sempre a pensar fazer-te a mesma surpresa, mas nunca sei o que vais querer de manhã. Acordas sempre com desejos diferentes… — sorriu de felicidade envergonhado.
— Fico sempre a espera que acordes sem saber o que fazer… Hoje lembrei-me.

Alguma coisa, no sonho, começava a incomodar Bia, só que a sua mente ainda não tinha conseguido perceber o quê.

— Tão querida! Obrigada Inês…
— Naaaaaaãoooo — Gritou Bia ao mesmo tempo que se levantava com o coração a bater descompassado.

Demoraram ainda alguns segundos, até que o seu coração voltasse ao normal e se conseguisse mentalizar que tinha sido um sonho. Um pesadelo, alias! Só de se lembrar parecia que lhe faltava a o ar. Entretanto olhou para o relógio que tinha na mesinha de cabeceira, não tanto para ver as horas, mais para lhe ajudar a varrer do pensamento as ultimas imagens do pesadelo. Ainda eram 3h da manhã, e no dia seguinte tinhas aulas na faculdade, bem cedo. O melhor era esquecer, porque nada daquilo que tinha visto era real, e agora tinha de dormir.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A minha mão na tua (cont.)

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O destino foi o mesmo de sempre, de quando o tempo era pouco e a vontade de estarem juntos era muito: a praia.  Os pés levaram-nos lá sem se aperceberam, se não quando lá chegaram. O sorriso foi impossível de conter, era sempre assim, quando davam por ela já estavam a passear de mão dada à beira mar.

— Já viste onde viemos parar?
— Pois é… Acho que este lugar tem qualquer coisa de especial, para vimos sempre aqui ter… — responde sonhador o Filipe.
— Mas hoje não estamos sozinhos. Olha ali…—

Ao longe um casal, com rugas a emoldurarem-lhes o rosto e a adornar as mãos, passeavam com um olhar sereno sobre o percurso. No entanto era difícil perceber, se a serenidade era relativamente ao caminho já percorrido ou àquele que tinham ainda para frente. Porém, uma coisa era certa, uma coisa era impossível não lhes invejar, a sua irradiante felicidade.

— Que giro, já viste como parece que só por se dar as mãos dadas, tudo é possível… tudo é mais fácil. Aposto que eles já passaram por muito, mas olhando ninguém dá por nada, parece mesmo que a vida é fácil de se viver e… — Bia falava quase sem respirar, como se tivesse medo de não conseguir contar tudo aquilo que estava a pensar.
— Já tinha reparado, sim, Beatriz… — normalmente tratava-a por Bia, mas quando as palavras lhe saiam do coração, quando queria que ele ouvisse também com o coração, chamava-a ternamente assim — todas as vezes que tenho a minha mão na tua.
— Oh… — corou, e a sua voz morreu e os seus pensamentos transformaram-se em memórias. Realmente, tinha sido sempre assim, desde pequenos, quando estavam de mãos dadas, o tempo voava, nada era impossível…
— Bia…?
— Sim? Ah! Esqueci-me outra vez de responder não foi? Desculpa, lembrei-me de tanta coisa… Promete-me uma coisa. Enquanto gostares de mim, levas sempre a minha mão na tua? Mesmo quando… Mesmo se tivermos filhos… Não te vais esquecer de me dar a mão?
— Para ser como nos romances, para termos sempre os nossos corações ligados, para sermos um só…
— Opá! Lá estas tu a gozar comigo, para! Eu estava a falar a sério!
— Anda aqui… — e a sua mão encostou-a a si — Pronto desculpa, eu percebi. Eu prometo que vou levar sempre a tua mão na minha, mesmo quando formos velhinhos, até porque assim também levas a minha mão na tua. — e piscando-lhe o olho, ficou assim selada a promessa.

 

* 1 ano e meio, a minha mão na tua :) ♥

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A minha mão na tua

De mãos dadas — Cucuu, o qu’é que estás a fazer?
— Filipe!! Olá! Como é que entraste?
— Toquei a campainha e a tua mãe abriu-me a porta…
—Ahh… — respondeu a Bia apercebendo-se que a sua pergunta tinha uma resposta obvia.
— Ou pensavas que tinha sido pela janela, como um super-herói, só para ver a sua amada?! — disse o Filipe, no seu ar troceiro.   
— Oh claro que não! Mas é que nem te ouvi, estava aqui perdida no meu livrinho…
—Já estou a ver que sim — acrescentou sorrindo — o que é que estas a ler hoje? Ou ainda é o mesmo de ontem?
— Não sejas assim… Também não leio assim tanto… Só as vezes, quando os livros são muito bons é que não consigo parar, de resto não tenho culpa de ler rápido…
— Pronto, pronto, não precisas de te justificar. Eu só estava a brincar contigo, eu já sei isso tudo. E também sei é que ainda não me deste um beijinho e já estou aqui sentado na tua cama p’r’aí há uma hora!! — acrescentou rapidamente Filipe fingindo-se muito magoado.
— Ohh… isso não pode ser — disse a Bia baixinho, ao mesmo tempo que encostava os seus lábios aos dele.

Era mais um fim de tarde de Outuno, mais uma a somar às muitas que tinham passado juntos. Já ia fazer quantos anos, mesmo? Bem já eram muitos, se se contasse desde aquele Verão em que se conheceram, ou até mesmo se se contasse apenas a partir de  quando tinham começado a namorar. Agora já estavam os dois na casa dos vinte, o Filipe com 23 e a Bia quase a fazer 22. O tempo tinha passado mas, o sorriso que ambos tinham quando estavam juntos, continuava a ser radiante e cheio de alegria como sempre.

— Vamos dar uma voltinha? Prometo trazer-te de volta a casa, são e salva, antes do jantar!
— Antes da hora de fazer o jantar, hoje sou eu a fazer, sabes como é a D. Maria…
— Sim, eu sei!! Se chegamos atrasados, ainda me obriga também a ficar para te ajudar como “castigo” de te ter trazido atrasada! — Respondeu Filipe depois de um riso divertido, de quem já passou por ela — Vá, então vamos para aproveitarmos o tempo que temos, que já não é muito!

* como sempre exagerei e escrevi demais
para um post só, por isso… Continua…

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Uma Doce Recordação

Uma doce recordação

— Lembras-te? Naquele dia estávamos os dois sem saber o que fazer. Vá, quer dizer, tu sabias o que querias fazer, só não sabias bem como — relembrou a Bia com uma pequena gargalhada.
— Pois, mas tu também não ajudaste nada, fugiste para a praia, tive de andar à tua procura.
— Oh, porque eu já desconfiava que ias ir lá a casa e ainda não sabia muito bem o que te dizer, nem como olhar para ti… Estava tão envergonhada, eu tinha-te beija…
— Eu tinha-te beijado — Disseram em simultâneo, o que fez com que ambos se rissem.
— Tu é que me beijaste? Não fui eu? — Disseram novamente ao mesmo tempo.
— Se tu soubesses o quanto me tinha dado jeito, se eu tivesse percebido que também me tinhas beijado… Quer dizer eu percebi, mas na altura estava tão nervoso que pensei que tinha sido imaginação minha!  — Continuou Filipe, depois de uma nova gargalhada de felicidade.
— Ohh… E eu no meio daquela ansiedade toda, também já não sabia se tinha sido eu ou tu e fiquei tão envergonhada só de pensar que te tinha beijado… Nunca tinha beijado ninguém… — Acrescentou baixinho ao mesmo tempo que os seus olhos fugiam em direcção ao mar.

Os dias de sol tinham regressado, depois das chuvas que teimavam em persistir neste início de Primavera. Pelos vistos, Março tinha trocado com o Abril e este ano seria Março águas mil. No entanto, meteorologia não era um tema de conversa que interessasse a Bia e Filipe. Naquele dia estavam perdidos nas recordações de como tudo tinha começado.

— Estavas tão quietinha sentada lá em cima na falésia, a ver o mar. Pareceu-me que naquele momento o mundo tinha parado… — Até as gaivotas pareciam paradas no ar, maravilhadas a observar o espectáculo lá em baixo no rochedo, que delimita as planícies de campos de cultivo, que se estendem ao longo da costa. — Estive ali a olhar para ti, até que te apercebeste da minha presença e olhaste para mim com esses teu olhos sorridentes. Acho que me apaixonei por ti outra vez, naquele instante e ao mesmo tempo pensei: Bolas! Lá se vai a surpresa, agora já viu o girassol!
És tão tontinho! — Riram os dois — Eu nem reparei no girassol! Só quando mo deste mesmo, claro. Já me tinhas dado muitas flores, quando éramos pequenos estavas sempre a apanhar e a dar-me, mas esta foi especial!
— Já te disse porque te dei um girassol e não outra flor qualquer? — Perguntou Filipe com um ar matreiro, de quem estavas prestes a partilhar um segredo proibido.
— Hmm… parece-me que não. Também nunca tinha pensado nisso, mas diz lá.
— Queria dar-te a maior flor de todas para representar o tamanho daquilo que sentia por ti… Além disso, o girassol tem uma característica que eu gosto muito e que também tenho, gira para estar sempre de frente para o sol… E o meu mundo também gira todo à tua volta… És o meu Sol!
— Ohh…
— Na altura nem me lembrei de te explicar. Só tinha uma frase em mente e tinha de a dizer logo, antes que perde-se a coragem: Queres namorar comigo?

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O melhor que se pode fazer nas férias (cont.)

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Já a porta de casa da Bia combinaram encontrarem-se a seguir ao jantar, afinal estavam de férias não havia muito que fazer. E foi assim toda a semana, depois do almoço passavam a tarde na praia e depois do jantar, as horas eram passadas a ver as estrelas ou a andar de bicicleta aproveitar o calor das noites de verão. Não passavam um dia sem o outro e quando algum deles se atrasava para o que tinham combinado, havia qualquer coisa que os deixava inquietos, não sabiam bem o quê, mas só passava quando estavam juntos. Numa dessas noites, a Bia estava novamente entretida a contar-lhe sobre o livro, já o tinha acabado:

— No fim, ela ganha o concurso e os sapatos que o avô e a avó desenharam aparecem nas montras da colecção de vestidos de noiva ao lado de marcas famosas como Prada!! Já viste ela batalhou pelo sonho e consegui!
— Pois…
— Pois, o quê? Oh Filipe. não gosto nada quando fazes isso! Eu estou  falar contigo porque é que deixas de me ouvir?
— Estava só a olhar para ti, gosto do teus olhos… — Ups! Já tinha falado demais! Tinha decidido, melhor, tinha descoberto que estava apaixonado pela Bia. Porém, ainda não tinha encontrado maneira de lhe dizer, tinha de pensar em qualquer coisa, mas depois disto o que é que lhe ia dizer?
— Ah… — e sem conseguir dizer mais nada, perdeu-se também no olhar dele, que estava cada vez mais perto e reparava agora também nos seus lábios perfeitos e… Quentes… E… Macios… Espera lá! Estavam a beijar-se?! Estavam, agora não estavam mais, porque segundos depois de se terem apercebido já a magia se tinha perdido e dado lugar ao constrangimento.
— Haa… Bem até amanha, sabes eu tenho de…
— Pois, eu também. Até amanha, Filipe. — Acrescentou rapidamente Bia.

O caminho de casa da Bia até a sua, parecia interminável e aquele “bichinho” na sua cabeça não o estava a ajudar. Agora sabia que não era um bichinho, era a paixão que sentia por Bia, que lhe confundia os pensamentos. O que é que ia fazer agora? De certeza que ela não ia conseguir olhar outra vez para ele. Pior! Não conseguia perceber se o beijo tinha sido retribuído, ou se era apenas a imaginação dele que lhe dizia que sim. Estava a dar em doido! Amanhã tinha de pensar em qualquer coisa, porque hoje não conseguia.

Quem também não estava a conseguir pensar era a Bia, estava furiosa, mas não sabia bem porquê, nem com quem. A principal suspeita era ela própria, está claro. Era por ela ser tão confusa e exagerada que estava furiosa! Como é que não se tinha apercebido? Os dias todos com ele, aliás a vida toda com ele, sempre lindo, amigo, compreensivo, divertido… Ai estava apaixonada!! Tinha-o beijado!! Ou será que tinha sido ele a beija-la? Ai o que é que ia fazer? Amanhã não ia conseguir olhar para ele de tão envergonhada que estava.

Os minutos passaram todos lentamente durante a noite e o sono teimou em não apareceu. Quando o sol apareceu no horizonte Bia decidiu que não podia fazer nada. Afinal, ela era menina e não tinha coragem para aquelas coisas, mais eles eram amigos e aquela era uma amizade que ela não queria perder. Por isso, estava decidido, o remédio era continuar como se nada tivesse acontecido e ao mesmo tempo tentar perceber se ele também sentia alguma coisa. Aquela decisão resultou num soporífero milagroso, porque segundos depois Bia já repousava num leve sono.

Infeliz ou felizmente, Filipe não teve tanta sorte, nem uma ideia luminosa lhe devolveu o sono, tal foi a confusão que lhe passou pela alma durante toda a noite. Depois de tantas voltas na cama, por volta das oito da manhã, já estava na sala a olhar para a televisão, sem ver nem ouvir o que lá passava.

— Já não aguento mais tenho de fazer alguma coisa!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O melhor que se pode fazer nas férias

Onze e meia da manhã, como é que tinha dormido tanto? Normalmente levantava-se as nove e meia. Olhou para o tecto, em redor e novamente para o relógio. Não, não estava a sonhar, estava no seu quarto e tinha mesmo dormido mais que o normal. Não estava a sonhar agora e ontem a noite será que tinha sido um sonho ou tinha mesmo ficado horas deitada no braço do Filipe a ver os céu estrelado e a conversar?

Bia, lembrava-se de tudo ao mais ínfimo pormenor: do som do coração do Filipe, da sua voz, do seu cheiro e do toque da sua mão no seu ombro… — Pois, não pode ter sido um sonho, se não, não me lembrava de tanta coisa. Espera lá, mas porque é que me lembro destes pormenores todos? — Depois de algum tempo a olhar para o tecto e a pensar, apercebeu-se de que tinha estado a falar sozinha e de que já tinha passado mais meia hora. Tinha mesmo de se levantar, era um desperdício tanto tempo na cama.

Depois do almoço, e de ter arrumado tudo (sim a mãe da Bia é bastante exigente com tudo o que diz respeito à arrumação, a cama tem de ser feita sem nenhuma ruga na colcha!) era altura de se deitar no seu banco de baloiço a ler. Nada podia ser melhor que um dia de sol, nas férias de verão, passado no jardim a ler…

— Olá!— Interrompia o Filipe com o seu sorriso os pensamentos de Bia — Que estás a ler?
— Ah! Olá! Hm… é só mais um romance. Chama-se Muito Valentine, já estou quase no fim. É muito giro, conta a historia de três gerações de uma família Italiana a viver em Nova York, que tem uma loja que faz sapatos, e a personagem principal é a neta que está a descobrir que também gosta de fazer sapatos e…

Enquanto a Bia relatava entusiasmadamente todo o enredo do livro quase de um fôlego só, já o Filipe se tinha perdido e há muito deixado de ouvir, estava encantado só com o som da voz de Bia. Desde há muitos anos que se encantava com as historias dos livros dela, mas ultimamente era mais do que isso, era como se um feitiço o levasse a querer ficar horas com ela.

O dia de Filipe tinha começado umas horas mais cedo que o de Bia, mas foi em quase tudo idêntico. No entanto, havia aquela pequenina coisa, aquele… como lhe chamar? Aquele “bichinho” seu cérebro sempre a sussurrar-lhe ao ouvido: O que estará a Bia a fazer? Gostaste muito de estar com ela ontem, não foi? Quando é que vais estar com ela outra vez? Não tens nada para fazer porque é que não vais lá?… O Bichinho foi tão insistente que quando se apercebeu estava a fazer-lhe a vontade, e foi assim que foi ali parar. Entretanto, tinha-se sentado ao seu lado no banco de baloiço de padrão florido já desbotado pelo sol, que se encontrava no jardim das traseiras da casa da Bia desde que se conseguia lembrar.

— … E agora estão em Itália a comprar os materiais para fazer o sapato que ela desenhou para o concurso. Não é gira a história?
— Hã? O quê? Ah! Pois a história é muito gira sim.
— Pois, pois… já vi que estive a falar para o boneco! Não ouviste metade do que eu disse! Afinal, estavas a pensar em quê?  
— Eu? Aaa… Estava a pensar que, apesar da historia ser gira, é um desperdício estares aqui deitada a leres, quando está este sol, mesmo bom para um passeio e uns mergulhos na praia. Que me dizes? — Respondeu atrapalhadamente o Filipe ainda meio perdido no feitiço.
— Hm… Está bem, deixa-me só ir lá dentro vestir o bikini. — A Bia estava prestes a descobrir que talvez sempre houvesse algo melhor para fazer num dia de Verão, que ficar deitada a ler.

Longas caminhadas e mil e um mergulhos depois, e já eram nove horas, o dia tinha passado a correr e nenhum dos dois tinha reparado. Correr, rir, chapinhar ao longo de toda uma tarde de praia cansa e por isso agora estavam os dois sentados na areia a conversar sobre tudo,  sobre nada, sobre qualquer coisa, era assim desde que se lembravam, havia sempre tema de conversa. Algures no meio da conversa, distraidamente a Bia olha para o relógio e dá um salto de susto.

— O que foi? — assustou-se também o Filipe.
— Já são nove horas! As nossas mães vão se passar, temos de ir para casa jantar! Eu nem disse para onde íamos!

Continua…

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A história das Estrelas (cont.)

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— Sim, ainda te lembras qual é? — E com esta simples frase, o Filipe interrompeu os pensamentos e as “esperanças” da Bia.

Agora já não havia muito a fazer, ele sabia que ela já não iria entrar em casa, pelo menos não agora, pelo menos não nas próximas horas. Era sempre assim que começavam, há muitos anos, as horas que passavam juntos a conversar. Ele picava-a, ela ficava chateada, começava a ir-se embora, ele dizia alguma coisa que sabia que a ia prender e ela voltava para ficar com ele.

— É aquela em W, não é?
— Ah! Afinal ainda te lembras! Queres saber a sua história? — E um sorriso de menino pequeno fez brilhar os seus olhos de 18 anos.
— Já sabes que quero… — E quando acabou de o confessar, reparou que sem se aperceber, se tinha deitado no braço do Filipe.
— Antes de te contar a história da Cassiopéia tenho de te apresentar a sua filha… A andrómeda… — E propositadamente fez uma pausa, para criar suspense, mas também para reparar no olhar atento com que a Bia o olhava — Mais conhecida por 3 Marias, são aquelas ali. Vês perto da cassiopeita, aquelas que estas assim em linha recta muito brilhantes. Já viste?
—  Hm Hm… —  Foi a única coisa que conseguiu dizer, tinha medo que se disse-se algo mais a magia da historia e do momento acabasse.
—  Pronto. Então como eu estava a dizer a Andrómeda era filha da Cassiopeia, uma rainha da Etíopia. Conta a história que um dia essa rainha ousou comparar-se as nereidas, filhas de Poseidon, deus do Mar. Tal comparação não agradou as Neredeias que exigiram de seu pai vingança. Então, Poseidon, enviou um monstro marinho para destruir o reino de Cefeu, marido de Cassiopeia…
—  Anh… — Bia estava admirada, como é que ele sabia sempre tantas histórias?
—    Porém, o oráculo daquela terra, sugeriu que para acalmar o Deus do Mar, Andrómeda fosse oferecida em sacrifício ao monstro marinho. Assim, ela foi acorrentada a um rochedo, mas Cetus um héroi salvou-a e a sua mãe, Cassiopéia como forma de punição foi transformada numa constelação.
— Oh, tão gira a história! Como é que sabes sempre estas histórias?
—  Isso não te posso contar, se não perdem o encanto e depois como é que consigo que fiques comigo a conversar?
A Bia corou, mas deixou-se ficar ali, a contemplar o céu estrelado e a ouvir o coração do Filipe ali mesmo ao lado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A história das Estrelas

— Olá Filipe! O qu’é que estás aqui a fazer?
— Oh, está muito calor em minha casa. Não conseguia dormir, então vim para aqui deitar-me a ver as estrelas…
— Ah, mas sabes que a minha mãe é que não vai gostar muito…
— Porquê?
— Porque estamos a pisar a relva dela — explicou a Bia com riso malando e enquanto se deitava a seu lado — as vezes acho qu’ela gosta mais do jardim do que de pessoas!

E prolongando o riso malandro dela, o Filipe não pode deixar de a picar:

—Pois, então se forem pessoas como tu, eu também preferia jardins!
— Epa és mesmo parvo, olha eu vou mas’é dizer a minha mãe que lhe estas aqui a estragar o jardim, nem sei porque é que ainda te aturo!! Parvo! — Foi a resposta da Bia, ao mesmo tempo que se começava a levantar.

O céu era um manto preto salpicado de pequenas e brilhantes luzes estreladas, que do alto da sua pequenez, contra a imensidão negra tentavam gritar: “Olha para mim, estou aqui!”. Podia ficar a noite toda a contemplá-las, como se estivesse enfeitiçado pelas suas vozes inaudíveis, mas mais do que gostar de ver as estrelas, gostava de implicar com a Bia. Ela era mais nova do que ele, mas nos últimos anos tinha crescido tanto, tinha “dado um pulo” como a sua mãe costumava dizer, e agora estava mais alta e…bonita…

— O que é que eu estou para aqui a pensar?! — Ouviu-se dizer, enquanto reparava que a ela já ia a meio caminho de casa — Espera!! Onde é que vais?? Eu ia-te dizer onde estáva a Cassiopeia…

O nome da constelação fê-la parar. Ele sabia perfeitamente que ela adorava saber o nome das estrelas. Porque é que ele conseguia sempre o que queria?? Isso Irritava-a, mas não lhe conseguia dizer que não…

— A Cassiopeia… — Os seus lábios falaram por vontade própria, ela já não queria estar ali! Ou queria? Ele estava sempre a tentar chateá-la e a maior parte das vezes conseguia, porque é que depois tinha de ser tão querido? Bem, mas podia ser que ele não a tivesse ouvid…

 

Continua…

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Cadeados de Amor*

Florencia

– Filiiiipe!! – gritou ela à nuvem de pó que via ao longe. De certesa que era ele a andar de bicicleta, só podia.  – Filiiiipe!

– Como é que sabias que era eu?? Já te estava a ouvir gritar ainda vinha lá ao fundo… agora tens super poderes?? – perguntou mal parou no portão da casa da Bia.

– Oh não tenho nada, mas só tu é passas por aqui a acelerar de bicicleta. És maluco é o que é! Isto é so pedras!!

– Tu é que és uma mariquinhas, Bia! E isto é fazer BBT, não é andar de bicicleta! Isso é para meninas! – isto foi dito com todo o seu ar de superior, de quem afirma que os homens são muito mais fortes!

– És mesmo parvo! Tu e as tuas manias de que os homens são melh… – nem teve tempo de acabar a frase, já o Filipe estava falar.

– Olha lá, mas porque é que me ‘tavas a chamar?

– Ah! Era para te mostrar uma coisa… mas já não sei se te quero mostrar, que já sei como és e agora vais gozar comigo…

– Não sejas chata, mostra lá!! Que agora quero saber o que é!

Já um bocadinho amachucado, ela lá tirou o postal do bolso. Não fosse a descrição no topo, “Ponte vechio – Florença” e dificilmente se poderia reconhecer aquele lugar, decorado com apenas mais uma estátua. Mais uma estátua? Bem, talvez não, esta tinha algo de… diferente…

– Mas o qu’é isto? Porque é que tem tantos cadeados à volta – perguntou o Filipe quando levantou os olhos do postal.

– Por isso é que te queria mostrar. Não é engraçado? Foi a minha prima que me mandou de Italia, ela diz que agora é tradição lá, os namorados fecharem cadeados, assim em pontes e depois mandarem as chaves aos rios!! – explicou a Bia, que estava quase a rebentar de ansiedade para contar esta história ,que para ela era fantásstica!

– O quê?? Mas pa’ quê? Que mania estranha…

– A minha prima contou-me tudo!! Um escritor publicou um livro, em que um casal prendia uma corrente com um cadeado, numa ponte famosa de Roma, e depois mandou a chave ao rio. O livro deu num filme e agora é quase tradição!! Qualquer dia também quero ir lá por um cadeado… – concluiu ela envergonhada…

– Ai vocês raparigas… que lamechice!! Eu se algum dia fizer isso…Oh eu não vou é fazer!!

– Ahh!! Mas estavas a pensar nisso!! Apanhei-te!!

– Olha não queres mas’é vir andar de bicicleta?? – acrescentou o Filipe rapidamente

 

* Histórica baseada em factos reais

quarta-feira, 10 de junho de 2009

“Ia ter Saudades…”

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Que grande novidade! O Filipe não cabia em si de tanta felicidade! Tinha de lhe contar! Pegou na sua bicicleta e pedalou, pedalou o mais rápido que conseguiu, pela estrada poeirenta fora, até à casa da Bia:

― Bia! Bia! Oh Bia!! ― gritava ele ainda mal tinha entrado no jardim da casa dela.
― Olá Filipe. Bem, grande pressa com que estás hoje… ― Por pouco não via a mãe da Bia, que estava dobrada junto do canteiro.
― Ah! Olá D. Maria… ― e já a bicicleta tinha sido atirada para o chão e ele se lançava porta dentro, até à sala ― Biiiaa!!
― Filipe!! Olá!! Então o qu’é que se passa, mal me deste tempo de arrumar a cozinha, pensava que só vinhas cá ter mais log… ― nem conseguiu acabar a frase, já estava a ser interrumpida…
― Não sabes! Pa semana vou para o campo de férias!! Consegui uma vaga!! Sabes aquele que eu queria ir? Consegui! Consegui! Consegui!
― Ah…  Boa!! Parabéns!! Ganda sorte!!

Durante o resto da tarde, o Filipe mal deixou a Bia falar, tal era o entusiasmo para contar tudo o que iria fazer e o quão espetacular ia ser. A Bia juntou-se-lhe na  euforia e dois planearam mil uma peripécias, que não poderia faltar num campo de férias.

Entretanto a semana foi passando, e o entusiamo de Filipe aumentando e o de Bia, um pouco contra a sua vontade, diminuindo… Todos os dias falavam das aventuras, até que chegou a véspera do grande dia:

― Então adeus Bia, vemo-nos daqui a duas semanas…
― Duas semanas? Ahh… Ainda não tinha reparado que era tanto tempo… Bem, então adeus Filipe, diverte-te muito!! E depois conta-me como foi, ‘tá bem?
― Claro!! Quando chegar, venho logo a correr ter contigo e conto-te tudo!! ― isto foi dito já fora do portão a correr, a mãe estava a sua espera e hoje não se podia atrasar, tinha que se deitar cedo…

A Bia ficou a vê-lo ir-se embora e até ao último momento, resistiu à enorme vontade de gritar: “Não vás! Fica aqui comigo…”. Estava feliz por ele e queria mesmo que ele se divertisse, mas duas semanas? Era muito tempo… Ia ter saudades…

domingo, 3 de maio de 2009

Uma Palavra Importante

menino e menina

— Biiiia!! Anda brincar!
— Oh Filipe, aí fora está tanto calor…vamos brincar ao quê?

A Bia e o Filipe moram mesmo ao lado um do outro, e desde aquele dia em que o Filipe entrou no quintal da Bia, a gritar para ela vir brincar, que ele estava farto de estar em casa, as brincadeiras em dias de sol de Verão, tornaram-se quase obrigatórias.

— Vá anda lá!! Olha bora à praia, boa?
— Ah!! Boa!! Vou dizer à minha mãe: Oh mãaaee… — e os sons da sua voz perdem-se no interior da casa enquanto ela corre da janela do seu quarto ao encontro da mãe, para lhe implorar que a deixe sair. Bia tem 10 anos e o Filipe 12, por isso ela sabe que vai ter de prometer portar-se bem e voltar cedo, porque a mãe lhe vai dizer que ainda são muito pequenos para andarem por aí a brincar sozinhos… — Bem, ‘tava a ver que a minha mãe não me deixava vir…temos de vir antes de ficar noite, ouviste?
— Sim, sim… Anda!! O último a chegar é um ovo podre!!!
— Hei!! Mas começaste a correr primeiro que eu!!

A praia fica a 10 min de casa…5 se forem a correr…

— Ganhei!! Ganhei!! — grita o filipe, na euforia dos seus 12 anos.
— Não ganhaste nada!! Fizeste batota!! Tu nem me avisaste e já ‘tavas a correr…
— És um ovo podre!! És um ovo podre!!
— Chato!! Devia era ter ficado em casa… olha vou apanhar conchas, fica aí se quiseres!
— Pronto… Espera por mim! — ela anda rápido, só tinha ficado um bocadinho lá atrás a rir e agora já tinha de correr para ir ter com ela  — Fogo! Tu também és uma chata! Vamos lá apanhar conchas…

O costume: birras, corridas, gargalhadas… uma amizade inocente da infância, em que estar zangado ou a rir é tudo normal.

— Ai! Já estou cansado e além disso já não me cabem mais conchas nos bolsos, vou-me sentar aqui… Ainda não ‘tás farta?
— Sim, e também já apanhei muitas! — o Filipe tem razão, sentar na areia depois de tanto andar sabe mesmo bem — É pena a minha mãe não me deixar ir à agua…’tá tão boa!
— Ya! A minha também não me deixa, são umas chatas! Ah! Ainda não te contei!! Vi o meu primo a namorar!!
— Viste? O que é que ele ‘tava a fazer?
— ‘ Tava  a dizer: “Amo-te”
— “Amo-te”? Só isso? Oh! Isso não é namorar!! Não ‘tava a dar beijinhos??
— Não! Isso era o que eu queria ver!! Mas olha, “Amo-te” é uma palavra muito importante num namoro… — Isto foi dito com a sua cara mais séria, afinal, falar de namoros era o assunto mais sério da sua idade! 
— Como é que sabes?
— Ora, porque sei! Sou mais velho do que tu!
— Então como é que sabes quando é tens de dizer “amo-te”? Quando é que sabes que amas alguém? Ahh, pois!! Aposto que não sabes!!
— Sei sim!! Mas não te vou explicar, porque eu sou mais velho tenho de saber mais de namoros que tu! E além disso, não dá para explicar tens de sentir, o teu coração é que te diz quando é a altura… foi o que me disseram… Olha! Já ‘tou farto desta conversa, bora fazer tuneis? Daqui a nada temos de ir embora…
— Hmm…Está bem! Mas, vais ver que daqui a algum tempo vou descobrir o que é amar! Ainda vou descobrir primeiro que tu! Toma! Toma!

Ai…o que tu me foste dizer… @